A guerra contra a razão

7
792

Por que a feminista quase tem um derrame quando alguém chama atenção para o fato de que nem todo homem é um estuprador? Por que o Zeca Camargo está sendo processado por se expressar? Por que essas pessoas que possuem tanta convicção no óleo de coco ficaram tão irritadas? Em suma: por que tudo vira polêmica?

A principal característica dos seres humanos que os tornam diferentes dos outros animais é o fato de serem parcialmente racionais. Bilhões de anos de evolução levaram esse mundo a conceber um animal dotado de um neocórtex, a parte do nosso cérebro responsável pelo raciocínio e pela linguagem, entre outras funções. Infelizmente, ainda não atingimos o estágio evolutivo em que o neocórtex ofusca as funções das partes mais primitivas do nosso cérebro. Nós ainda insistimos em “pensar” com os nossos cérebros límbico e reptiliano. Aquele, responsável pelas emoções mais básicas ajustadas para a sobrevivência dos nosso ancestrais extintos há muitas eras, dentre as quais se destacam o medo do desconhecido, o desejo sexual, a fome e a raiva; este, promotor dos nossos instintos e reflexos mais primordiais.

E não é preciso muito para que nosso cérebro primitivo tome a dianteira das nossas ações nessa pós modernidade digital: basta que alguém diga ou faça algo com o que você não concorde, para que o humano regrida para o estado de tiranossauro.

Pensar diferente pode ser perigoso
Pensar diferente pode ser perigoso.

O nível dos debates é tão baixo, especialmente nas redes sociais, que impressiona. Tudo vira polêmica. Na idade do bronze, apenas religião era polêmica. Na idade média, a política também se torna polêmica. Depois da revolução industrial, a sexualidade e aspectos culturais se tornam polêmicos. E na pós modernidade, não existe mais nada que não seja polêmico: tecnologia, música, esporte e até alimentação gera polêmica. Acabou a conversa fiada! Não existe mais um tema que se possa discutir sem que alguém se sinta ofendido. Há uma guerra contra a razão, e a razão está perdendo.

O exemplo mais recente vem do programa Bem Estar, exibido na última terça-feira, dia 18 de agosto de 2015. Esse programa é provavelmente um dos últimos que resistem com algum conteúdo útil na TV aberta, mas foi ferozmente atacado porque tocou em um tema muito sensível e polêmico: óleo de coco. A nutricionista Ana Maria Lottenberg teve a infelicidade de afirmar, de baixo dos seus 32 anos de experiência com gorduras, que o óleo de coco não é recomendado para cozinhar, sendo que os óleos de soja e canola seriam as melhores escolhas. Os adeptos da seita do óleo de coco se ofenderam, chegando a formular uma teoria conspiracionista, na qual a nutricionista estaria a serviço de fabricantes de óleo de soja e canola. Isso chega a ser um elogio, vindo de pessoas que pagam até R$120,00 em um litro de óleo de coco, enquanto óleos de soja e canola custam em média R$5,00 e R$10,00. Prefiro deixar os malucos da internet de lado e apostar minhas fichas na profissional, e na razão, mais uma vez.

Necessidade de anuência
A necessidade da anuência dos demais é um sinal de fraqueza e insegurança.

Mais importante do que a polêmica da vez em si, é investigar o comportamento. Por que certos religiosos não ficam satisfeitos até que todo mundo esteja de joelhos? Por que o intelectual odeia tanto quem não é adepto da visão de mundo que ele escolheu? Por que a feminista quase tem um derrame quando alguém chama atenção para o fato de que nem todo homem é um estuprador? Por que ainda existe briga de torcida? Por que o Zeca Camargo está sendo processado por se expressar? Por que essas pessoas que possuem tanta convicção no óleo de coco ficaram tão irritadas? Em suma: por que tudo vira polêmica?

A verdade é que não existe polêmica

E não existem temas polêmicos. O que existe são pessoas incapazes de debater um assunto racionalmente. Uma vez que os argumentos esgotam, ou que a vontade de convencer o outro é frustrada, os sentimentos afloram. Quando as pessoas aprenderem a se despir da necessidade de que outros concordem, para se sentirem mais seguras em suas posições, e quando aprenderem a debater usando raciocínio crítico ao invés de sentimentos, não existirá mais polêmica. Nós voltaremos a ser livres para falar a respeito de qualquer assunto sem medo de acabar precisando de um advogado.

A guerra contra a razão parece ser travada na mídia, nas escolas e nas instituições, mas isso é um engano. Essa guerra é travada no cérebro dos indivíduos. É aquela vontade estúpida que você sente de ficar ofendido com qualquer manifestação de pensamento que te contrarie, mesmo que na maioria das vezes não tenha sido direcionado a você. É a raiva que você sente do amigo que você não consegue convencer de que o seu partido é a melhor coisa que existe nesse país. É o seu tom de voz e frequência cardíaca aumentando, porque porções mais primitivas do seu cérebro querem ganhar uma discussão no grito. Se ao menos você desse uma chance ao neocórtex, descobriria sozinho que não há nenhuma discussão a ser ganha. Se a razão não for suficiente para convencer alguém de algo, nada será.

A dificuldade de comunicação. Essa parece ser a culpada de toda essa guerra contra a razão… Dê uma olhada neste link e você descobrirá que nem sempre meia palavra basta. Ou será que não somos bons entendedores…?

cérebro está morrendo

7 COMENTÁRIOS

  1. Show texto esplendido, amei e ao mesmo tempo fico triste por saber que a realidade é tão e/ou mais cruel, chegando a casos extremos de violência e intolerância, parabéns Lucas.

  2. Falar o quê,o texto ja diz tudo.gostei parabens pela exposiçao do assunto.Resumindo a vida tecnologica tornou-se um CAOS.

  3. Em um mundo em que se prevalece e o dinheiro desconfiar de certas noticias que dizem consuma isto ou aquilo é saudável ou n ão?

    • A questão é justamente essa Nice, observe o objetivo da notícia e veja o que lhe chamou mais atenção. O texto trata da maneira como lidamos com a opinião alheia, e como somos incompreensivo com erros, assim como estamos focados em querer analisar se o responsável pelo texto está coerente ou não com a realidade. E pasme, o parâmetro para essa “coerência” e para essa realidade” nada mais é do que nosso conhecimento e experiencia individual que obvio, é a unica correta entre as outras 7 bilhões. Em quanto não aprendermos a respeitar a alteridade não conseguiremos fazer jus a todo potencial que temos como ser social e racional. Espero ter somado com meu comentário e caso tenha falado alguma besteira peço desculpas e que desconsidere, se quiser. :P

    • Realmente toda e qualquer forma de se expressar corre o risco de ser atacada por fanáticos por qualquer coisa… Já dizia minha avó tudo que é demais faz mal, desde alimentação as certezas..

Deixe o seu comentário