A história das “craniotomias acordadas”

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Breve relato da cirurgia cerebral em pessoas despertas

Uma das situações mais intrigantes e impressionantes envolvendo a cirurgia do cérebro provavelmente também deve causar espanto em você: como é possível realizar uma cirurgia cerebral em um paciente acordado? Será que isso é mero capricho do neurocirurgião ou tem indicações científicas bem fundamentadas? Ah, com certeza isso é coisa do século XXI, fruto do desenvolvimento de equipamentos médicos de última geração. Mero engano seu…

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Fonte: leam-uem.blogspot.com

Passado remoto

Registros arqueológicos indicam que craniotomias em pessoas acordadas, sob a forma de uma trepanação, foram praticadas com sucesso muito antes do advento da anestesia geral. Crânios “abertos”, descobertos no Peru, mostram que muitas dessas pessoas sobreviveram aos procedimentos. Há um relato de 55% de cura nos 214 fósseis trepanados encontrados. Para quem não sabe, a trepanação é um procedimento realizado com o auxílio de algum instrumento – uma pedra lascada e afiada, no passado, por exemplo, ou o próprio trépano e craniótomo, nos dias atuais – caracterizado pela abertura de um pequeno orifício no crânio.

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Crânio trepanado datado do Neolítico, 3500 a. C., conservado no Museu de História Natural de Lausane (fonte: wikipédia)

Em alguns povos do passado, acredita-se que tudo isso foi possibilitado através da utilização de folhas de coca. Os crânios eram trepanados após rudimentar anestesia local induzida pela cocaína. Os procedimentos pareciam se envolver mais com rituais religiosos e/ou no alívio de sintomas associados às questões da alma.

Passado recente

Há mais de meio século, em muitos aspectos, iniciava-se a era moderna das craniotomias; apesar de guardar alguns conceitos históricos, o período representava o início de uma nova e estimulante fase da neurocirurgia. Muitos consideram o ponto de partida quando Wilder Penfield e André Pasquet publicaram seu famoso artigo sobre os aspectos cirúrgicos e anestésicos da cirurgia após a administração de sedação e analgesia local e intermitente. A publicação trouxe conceitos que são utilizados até hoje nas salas operatórias.

A verdade é que, de lá para cá, a capacidade de executar “craniotomias acordadas” tornou-se uma parte importante do arsenal de muitos neurocirurgiões, com aplicações significativas principalmente em neuro-oncologia. É por isso que, frequentemente, temos um relato de cirurgia do tipo nos noticiários mundo afora. A experiência tem propiciado uma maior agressividade, mas também uma maior preservação funcional.

O crescimento desse número de procedimentos se deve principalmente a esse caráter mais funcional que rege a neurocirurgia contemporânea. Apesar de avançarmos cada vez mais no conhecimento da anatomia e fisiologia do cérebro, as individualidades funcionais estão sendo priorizadas para cada caso. Saber se o cirurgião não está causando mais malefício do que benefício é crucial para o sucesso dessas operações.

Nesse sentido, a “craniotomia acordada”, apesar de requerer um maior número de profissionais especialistas envolvidos, bem como exigir equipamentos especiais de monitoramento, permite saber se as funções mais importantes para a vida do paciente, como um músico que toca determinado instrumento, estão de fato sendo preservadas. Incrível, não?!

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