Bullying pode causar obesidade?

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A pergunta parece meio óbvia a princípio. Mas a resposta não é bem a que você está esperando!

É comum vermos crianças que sofrem bullying na escola por serem obesas. Com certeza, você conhece alguém que já passou por isso (isso se você não tiver sido o “gordinho da turma”).

Mas será que o ele também pode causar o sobrepeso?

Essa foi a pergunta que uma pesquisa britânica publicada no periódico Psychosomatic Medicine, em Novembro deste ano, tentou responder.

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Obesidade gera bullying. Bullying gera… obesidade? Será?

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Vamos em frente.

Bullying, sobrepeso e obesidade

A pesquisa foi realizada no Reino Unido com 2.232 crianças que participavam de um outro estudo chamado Environmental Risk (E-Risk)Longitudinal Twin Study.

Nesse estudo, um grande número de irmãos gêmeos britânicos vêm sendo acompanhados, desde o nascimento, por pesquisadores. O objetivo é identificar os fatores de risco à saúde que surgem ao longo da vida e entender os impactos que eles geram. Dentre eles, o bullying.

A equipe de pesquisa decidiu entrevistar as crianças e suas famílias aos 5, 7, 10, 12 e aos 18 anos de idade.

A primeira pergunta era se as crianças eram vítimas de alguma forma de violência na escola. A resposta era dada de acordo com um conceito padronizado de bullying trazida pelos próprios pesquisadores, a fim de evitar confusões quanto à definição da palavra.

A avaliação do peso corporal em si foi feita aos 10, 12 e 18 anos. Aos 10, a avaliação era só visual. O avaliador deveria categorizar a criança em uma escala de 1 a 7 (sendo 1 “abaixo do peso” e 7, “acima do peso”). Já aos 12 e 18 anos, a medida foi feita com o cálculo do IMC e a medida da relação entre cintura e quadril.

Decidida a estratégia de pesquisa, era hora de testar algumas hipóteses.

Relação dose-efeito

Inicialmente, a pesquisa queria esclarecer 2 dúvidas principais:

  • Quanto mais tempo de bullying, maior o risco de sobrepeso?
  • E quanto mais tempo, maior a intensidade do sobrepeso?

Sabe qual foi o resultado? As crianças que eram vítimas de bullying tinham mesmo maior IMC e relação cintura-quadril quando chegavam na fase adulta.

Só que o mais interessante é que foi observada uma relação dose-efeito entre o bullying e a obesidade!

Primeiramente, as crianças foram divididas em 3 grupos durante as entrevistas: aquelas que não sofriam violência na escola, aquelas que sofriam bullying transitório (apenas durante o ensino fundamental ou ensino médio) e aquelas que sofriam bullying crônico (tanto no fundamental quanto no ensino médio).

Dessas, as que sofriam bullying crônico desenvolveram muito mais casos de sobrepeso que os outros 2 grupos. Além disso,  quanto maior a “dose de bullying”, mais essas crianças estava acima do peso ideal.

Dos 3 grupos, as vítimas de bullying transitório tinham relação cintura-quadril aumentada, enquanto as vítimas de bullying crônico tinha tanto essa medida quanto o IMC aumentados.

A culpa é do bullying?

E aí, você deve estar se perguntando: “Mas como dá para garantir que é o bullying que está causando isso?”

Antes de iniciar os trabalhos, os pesquisadores se questionaram o mesmo que você. Esse assunto é algo bem amplo, não é mesmo?

Ele acontece mais em locais com baixos índices sócio-econômicos, causa vários problemas mentais e ainda pode estar associado a maus hábitos alimentares. Então como confirmar que é o bullying (e não algum fator de confusão) que está causando a obesidade?

Para resolver esse problema, eles adicionaram mais 3 perguntas àquelas 2 iniciais:

  • As crianças da pesquisa também sofrem maus-tratos em casa?
  • O bullying causa mais sobrepeso mesmo quando as crianças têm outros fatores de risco para obesidade?
  • O ganho de peso veio antes ou depois de as crianças sofrerem bullying?

Bullying vs Maus-Tratos

Para resolver a questão dos maus-tratos, os pesquisadores aplicaram questionários aos pais e cuidadores. Esses questionários tinham como objetivo identificar casos maus-tratos em casa.

Maus-tratos e violência doméstica vêm sendo sempre associados a maior risco de sobrepeso nas pesquisas. Além disso, muitas crianças sofrem bullying e maus-tratos simultaneamente. Daí a importância de separar uma causa da outra.

O resultado foi que, mesmo dentre as crianças que sofriam maus-tratos, aquelas que também sofriam bullying tinham índice de sobrepeso muito maior na fase adulta. Mesmo se comparadas às que “só” sofriam maus-tratos.

Bullying vs Fatores de confusão

Para a questão dos vários fatores de confusão associados ao bullying, a avaliação foi feita fator por fator.

Os que mais preocuparam os pesquisadores foram o nível socioeconômico, acesso a boa alimentação, fatores emocionais, quociente de inteligência (QI) e tendência genética para obesidade. Para excluir esses fatores, a pesquisa seguiu as seguintes estratégias:

A população do estudo foi selecionada de forma a ficar equilibrada em nível socioeconômico, pegando proporções mais ou menos iguais de todas as classes sociais.

O acesso à alimentação saudável foi avaliado através de um questionário sobre a frequência e dificuldade as famílias em ter acesso a boa alimentação.

Outro questionário foi usado para avaliar o estado emocional das crianças logo no início da pesquisa. As perguntas buscavam se elas tinham tendência à ansiedade, depressão, agressividade e outros problemas de comportamento. Nessa etapa também foram feitas medidas de QI de cada criança.

Por fim, tendência genética para a obesidade foi avaliada de 2 maneiras.

Como o estudo era com duplas de gêmeos, os pesquisadores decidiram comparar os irmãos para concluir o risco de cada um desenvolver obesidade.

Assim, aqueles de tinham irmão gêmeo idêntico sem sobrepeso eram os que tinham menor risco de sobrepeso Em seguida, vinham os com gêmeo não-idêntico sem sobrepeso, gêmeo não-idêntico com sobrepeso e, por fim, gêmeo idêntico com sobrepeso (com o maior risco).

Além disso, é sabido que crianças que nascem com peso abaixo ou acima do esperado para a idade gestacional têm tendência a ter sobrepeso na vida adulta. Logo, os pesquisadores coletaram, também, informações sobre o peso de nascimento de cada uma dessas crianças.

O que vem primeiro?

Agora, você se lembra da avaliação de peso das crianças aos 10 anos? Ficou se perguntando por que ela foi feita no “olhômetro”?

Isso foi justamente para avaliar se as crianças “pareciam gordinhas”. Se esse fosse o caso, o sobrepeso poderia ser a causa do bullying e não o contrário, o que seria outro fator de confusão.

Só que, segundo os avaliadores, a grande maioria das crianças não estava com sobrepeso no começo da pesquisa (época em que eram vítimas de bullying).

Mesmo assim, o aumento do IMC e da relação cintura-quadril das vítimas de bullying foi bem claro ao longo dos anos, ao contrário do restante das crianças.

Causa e consequência

No final, o resultado foi, como esperado, que as crianças de baixa condição sócio-econômica, com má alimentação, mau estado de saúde mental, baixos QI, com irmãos obesos e/ou peso ao nascimento inadequado tinham, todas, mais risco de serem obesas.

Contudo, mesmo dentre essas crianças, aquelas que sofriam bullying tinham taxas de sobrepeso significativamente maiores que as outras!

Logo, a conclusão é que o bullying, por si só, é um fator de risco para a obesidade. E, mais que isso, quanto mais intenso e duradouro o bullying sofrido, mais a criança ganha peso até a fase adulta!

Mas, por quê?

Essa resposta ainda não se sabe… Existem várias teorias possíveis.

Pode ser que o estresse emocional desencadeie um comportamento de comer compulsivamente como forma de alivio. Isso ocorre, muitas vezes, pela perda do auto-controle que o próprio estresse crônico causa.

O estado de inflamação generalizada que é gerado pelo estresse crônico também causa indisposição e fadiga. Isso poderia deixar essas pessoas mais propensas ao sedentarismo, por exemplo.

Sem contar algumas questões sociais bem óbvias: as crianças vítimas de bullying tendem a brincar e se socializar menos. Logo, ficam mais sedentárias e, quanto mais peso ganham, mais bullying sofrem e menos exercícios praticam…

As causas provavelmente são multifatoriais. Fica nas mãos dos próximos pesquisadores tentar descobrir os mecanismos envolvidos nesse processo!

De qualquer maneira, esse resultado reforça a importância de se controlar bullying, no ambiente escolar e fora dele.

Basta lembrar que a obesidade é fator de risco para hipertensão, diabetes, câncer, e múltiplas outras doenças. E, inclusive, reduz a tempo de vida total dos indivíduos.

Se os outros fatores de risco para obesidade são muito abstratos e complexos de intervir, esse já é bem palpável, apesar de difícil. Intervindo o mais cedo possível, pode-se evitar o efeito-dominó de problemas que vem em seguida…

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Referência: Psychosomatic Medicine, 2016

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