Diamantes são para otários

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O leitor ficaria surpreso se eu revelasse que, para começo de conversa, diamantes não são tão raros quanto se pensa. Diamantes são uma fraude?

Se existe um país com capacidade de espalhar sua cultura, esse país são os EUA. Mesmo quando a cultura não passa do resultado de uma campanha publicitária extremamente bem-sucedida. Gastar dois meses do seu salário em uma pedra brilhante, se ajoelhar e oferecê-la a uma mulher é um rito de passagem do homem americano que deseja se casar. Esse ritual se espalhou pela Europa com sucesso e agora começa a invadir os países emergentes.

Quanto vale um diamante?

Em Finanças, temos o conceito de Valor Intrínseco, que é o preço do ativo descontado da potencial valorização e previsão de rendimentos. Exemplo: quando um fazendeiro compra um trator, seu valor será o lucro gerado pelo emprego da máquina no trabalho e o resultado auferido quando o trator for vendido para eventual substituição. Para o fazendeiro, o trator é um investimento. Quando você adquire um bem, a não ser que o destine para locação/arrendamento/produção, o valor deste bem imediatamente passa a ser apenas o valor de revenda.

Isso quer dizer que o valor do diamante não é o que você vê na vitrine da joalheria, mas quanto um joalheiro está disposto a pagar para recomprar o mesmo diamante, e isso não vai chegar a 50% do valor da vitrine. É isso mesmo, diamantes não valem nem a metade do que se paga por eles. Isso se deve a dois fatores: 1) o preço do diamante no mercado primário é controlado pela De Beers: uma companhia que domina a mineração e comércio mundial de diamantes; 2) diferente do ouro e outros metais preciosos, o diamante não tem liquidez nem fungibilidade. Um ativo é líquido quando é fácil trocá-lo pela moeda corrente. Um ativo é fungível se puder ser substituído por outro de mesma qualidade, espécie e quantidade. O diamante não é líquido e muito menos fungível. Classificar um diamante é supercomplicado, pois existem diferenças não só de tamanho, mas quilates, cor, corte e clareza.

Por que os diamantes são tão caros?

Não existe só uma resposta para essa pergunta, mas 90% do motivo se chama De Beers. O leitor ficaria surpreso se eu revelasse que, para começo de conversa, diamantes não são tão raros quanto se pensa. Eles eram raros até 1870, quando foram descobertas enormes jazidas na África do Sul. A partir daí um certo Cecil Rhode – colonizador inglês e fundador da De Beers – começou a comprar todas as minas que surgiam, até que em 1888, ele controlava toda a produção mundial. Contudo, com a Grande Depressão, os americanos não estavam dispostos a gastar muito com joias e o preço da pedra continuou caindo. Em 1938 a De Beers decidiu tomar uma providência muito séria: contrataram uma agência de publicidade, a N. W. Ayer & Son.

diamantes
Eles não são tão raros como se pensa…

Como foi que criaram demanda para uma pedra inútil a partir do nada?

Porque Gerold M. Lauck disse que era para comprar para as nossas donzelas, ora! Ele foi o responsável por um estudo encomendado pela De Beers, o qual fez revelações e recomendações auspiciosas:

  • Já que homens jovens são responsáveis por 90% das vendas de aneis de noivado, seria crucial incuti-los da ideia de que os diamantes são um presente feito de amor: quanto maior a pedra, maior a expressão do sentimento. Já as mulheres precisam aprender a enxergar o diamante como parte integrada a um relacionamento amoroso.
  • Existe um dilema que atua contra os diamantes: mulheres educadas e inteligentes não querem diamantes. Ao contrário, percebem que a maioria das mulheres desejam diamantes e por isso queriam ser diferentes. E ao mesmo tempo, mulheres que não são tão educadas ou inteligentes, veem na rejeição à pedra uma chance de parecerem diferentes. Entre os mais abastados, existe um desejo significativo de ser diferente como meio de parecer mais esperto. Já entre os mais pobres, existe um desejo de parecer mais próspero através do diamante que podem comprar.

Lauck tinha um problema: precisava vender um produto que ou as pessoas não queriam, ou não tinham dinheiro suficiente para comprar. A partir daí, recomendou que a De Beers fizesse do diamante um símbolo de status, uma marca do sucesso pessoal ou familiar. Precisavam promover o diamante como o objeto que materializava o sucesso de um homem.

Um investimento massivo em publicidade foi feito, e em 1947, o slogan “Diamonds are forever” (Diamantes são para sempre)[1], de autoria de Frances Gerety, se espalhou pelo mundo todo. Isso e cobrir artistas, socialites e até mesmo a família real britânica de diamantes, fez com que sua associação com amor indestrutível ficasse cravada nas mentes das pessoas.

Não é possível!

É possível sim. Se você é um homem que vai comprar um diamante amanhã para a sua noiva, faça-o sabendo que você só quer isso porque um bando de ricaços se reuniu há uns 70 anos atrás e decidiram que ele é do tamanho do seu valor enquanto ser humano. Se você é uma mulher que vai receber um diamante, faça isso sabendo que o produto nunca foi o diamante, mas você.

Diamantes são uma fraude que custou uma quantidade inexprimível de sofrimento humano: os diamantes de sangue – ou de conflito -, financiaram guerras, genocídio, e o apartheid por décadas. Ainda financiam ditaduras no continente africano. Diamantes são para otários.

[1] Uma mentira deslavada, já que diamantes se degradam com o tempo, podem quebrar e até mesmo queimar.

Fonte: imagem

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Dayse Gomes
Dayse Gomes

Muito interessante o seu posicionamento em relação ao diamante enquanto adorno. Talvez seu consumo exagerado para satisfazer egos seja mesmo algo para “idiotas”. No entanto, gostaria de destacar que a gema em questão não serve apenas para sustentar a vaidade: a indústria atual utiliza esta beleza para fins mais úteis, tais como tratamento de água, microeletrônica, próteses ósseas, telas de LCD, ferramentas de corte e perfuração, células solares… então não podemos correr o risco de sermos radicais quanto aos benefícios modernos que os diamantes nos proporcionam! E esse é um ponto de vista para ser analisado com cuidado.

Nelson
Nelson

Mano….

1870/1940/…..

é os anéis da Cleópatra ..
Coroas de faraós .. .
Navios afundados….
HISTÓRIA….

cê tá louco né….
desde sempre diamantes são e foram valiosos…..

Jude
Jude

Putz, que exagero do autor. Queimar diamante? Como? Para se derreter o diamante é preciso 10 GPa e 5000K, o que equivale a 99 atmosferas e 4736 graus centígrados. Queimar diamante é impossível. O autor tomou pau em aula de química.

Cris
Cris

Receio que para obter um diamante, precisaria morre muitas pessoas​ por certa “vaidade besta”. Muitos morreram e muitos irão morre pela ignorância do ser humano. Isso mesmo Lucas, temos que escracha!!! Diamantes são para babacas!!!!

Roberto
Roberto

Você está certo em tudo o que disse. Embora o diamante não seja tão raro, ele veio do fundo da terra e aflorou nas monas através do vulcanismo e da placas tectônicas deslocadas, sem isso permaneceriam no fundo da crosta terrestre, mas levou apenas algumas centenas de milhões de anos para se cristalizar na forma geométrica perfeita das moléculas, mas mesmo assim, é tão dura que somente outro diamante pode polir e cortar, e isso exige mais diamante, então para fazer cada joia de uma gema uma outra é gasta para prepará-la. São estas coisa que fazem o diamante tão… Leia mais »