O vírus se aloja nos centros de recompensa do cérebro, acionando-os toda vez que o indivíduo infectado recebe sinais de aprovação de terceiros por bens e serviços que tenha consumido.

Acabei de tirar da cartola um dado estatístico: 99% das pessoas acham que precisam de uma remuneração melhor. Uma promoção, um novo emprego, uma nova carreira ou talvez acertar na loteria e acabar logo com isso, se mudar de uma vez para o Caribe e viver se entupindo de mojitos e camarões.

É claro que um pouco mais de dinheiro é sempre bem-vindo. Significa acesso a mais produtos e serviços, mais conforto, mais segurança, mais saúde, mais educação e tudo aquilo que os políticos prometem nas campanhas. O espelho dos seus sonhos é feito de grana. Funciona tão bem que compra até amor verdadeiro. Mas o quanto é suficiente? Essa é uma questão de autoconhecimento. O que você precisa para se sentir bem?

Se você acha que precisa viver luxuosamente, viajar para lugares exóticos, frequentar ambientes caros e andar coberto de ouro, será difícil alcançar uma renda que lhe satisfaça. Por outro lado, se você se contenta com uma residência confortável, acesso a bens e serviços razoáveis e um lazer mais trivial, pode ser que a quantidade de dinheiro que você precisa é exatamente a que você tem.

Isso não quer dizer que é preciso se tornar acomodado, mas que ninguém deva se envergonhar ou entrar em desespero por causa da renda. A ambição é um excelente precursor da motivação, mas devemos tomar cuidado para que ela não se torne um fim em si mesma, nem um precursor da megalomania. E por falar em megalomania, precisamos tomar muito cuidado com o vírus do status.

Ele corrói os seus sonhos

O vírus do status é um patógeno muito comum que infecta qualquer pessoa com algum dinheiro. Estão especialmente vulneráveis: jovens recém formados em carreiras promissoras (como medicina, odontologia e engenharias) e pessoas que acabaram de aumentar sua renda ou obter acesso a crédito, como as que o Governo Federal denomina “Nova Classe Média”. O vírus se aloja nos centros de recompensa do cérebro, acionando-os toda vez que o indivíduo infectado recebe sinais de aprovação de terceiros por bens e serviços que tenha consumido. Com efeito, toda vez que os centros de recompensa são acionados, o “doente” passa a sentir uma necessidade maior de aprovação de terceiros para alcançar a mesma sensação novamente, o que faz com que sinta a inexorável necessidade de atingir um padrão de vida incompatível com a sua renda, levando-o a se endividar.

Infelizmente, a ciência ainda não provou a existência do vírus do status. Se houvesse, poderíamos desenvolver uma vacina. O que existe é uma necessidade de auto afirmação que corrói indivíduos sem amor próprio, tornando suas vidas ainda piores. Funciona assim: sua renda é ainda menor quando você está pagando juros sobre consumo, isso faz com que suas contas cheguem a um ponto crítico onde o que você recebe não é suficiente para pagar as suas dívidas; aí você se torna inadimplente. Todo endividado, especialmente o inadimplente, começa a se preocupar com as suas contas. A preocupação leva ao stress, o stress leva a noites mal dormidas, a insônia leva ao cansaço, o cansaço à irritação e ao cometimento de erros. Os relacionamentos vão mal, assim como a saúde e o trabalho.

O que você realmente precisa não é de mais dinheiro. Precisa aprender a controlar a si mesmo e o dinheiro que já tem. Assumir o padrão de vida que sua renda pode proporcionar não é vergonha para ninguém. Vergonha é destruir a sua vida e a da sua família porque você quer agir como uma criança mimada pedindo presentes fora de época. Na verdade, um estilo de vida mais frugal já é tendência. Comece repensando a sua residência. Imóveis menores custam menos, pagam menos impostos e não precisam de empregados. Também precisam de muito menos mobília; isso é bom porque você não vai comprar tanta porcaria. Quem sabe até não sobra dinheiro para realizar aquele velho sonho…

Imagem: goo.gl/TB17wn

Sobre o Mentor

Lucas Santana de Campos

Graduado em Direito pela Universidade Federal de Uberlândia. MBA em Mercado de Capitais pelo Instituto de Pós-Graduação de Goiânia. Entusiasta da ciência e do voluntarismo.

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