Os microplásticos estão entre os contaminantes emergentes mais preocupantes do século XXI. Invisíveis a olho nu, essas pequenas partículas plásticas já foram identificadas em praticamente todos os ecossistemas do planeta e, mais recentemente, no próprio cérebro humano. Seu impacto vai muito além do ambiental, atingindo a saúde humana de formas que apenas começamos a compreender.
Neste artigo, você vai entender o que são microplásticos, suas origens, como contaminam o ambiente, os riscos que oferecem à saúde — inclusive ao cérebro — e o que a ciência já descobriu sobre sua presença no corpo humano. Vamos explorar também o cenário brasileiro e os desafios para mitigar essa ameaça silenciosa e persistente.
O que são microplásticos?
De acordo com a definição da National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), os microplásticos são partículas sólidas de polímeros sintéticos com menos de 5 milímetros, insolúveis em água. Já partículas com menos de 1 micrômetro (μm) são classificadas como nanoplásticos, ainda mais difíceis de serem detectadas ou removidas do ambiente.
Os microplásticos se dividem em dois grandes grupos:
- Microplásticos primários: são fabricados intencionalmente nessa escala para uso em cosméticos, produtos de higiene pessoal (como pastas de dente e sabonetes esfoliantes), produtos industriais e farmacêuticos.
- Microplásticos secundários: resultam da fragmentação de plásticos maiores — como garrafas, sacolas e embalagens — que se degradam no ambiente sob a ação da radiação solar, atrito, microrganismos e intempéries.
A origem da poluição por microplásticos
A produção de plásticos se intensificou a partir da década de 1950. Estima-se que, desde então, mais de 8,3 bilhões de toneladas de plásticos tenham sido produzidos no mundo. Dessas, 6,3 bilhões tornaram-se resíduos — sendo que apenas 9% foram reciclados, 12% incinerados e alarmantes 79% foram descartados de forma inadequada, acumulando-se em aterros, rios, oceanos e solos.
No Brasil, o cenário é igualmente preocupante. O país é o quarto maior gerador de resíduos plásticos do mundo, com cerca de 11 milhões de toneladas por ano, mas recicla apenas 1,28% desse total.
Fontes de microplásticos no ambiente
As principais fontes de microplásticos incluem:
- Lavagem de roupas sintéticas, que libera microfibras no sistema de esgoto;
- Desgaste de pneus, responsável por grande parte da liberação de partículas no solo e no ar;
- Produtos de higiene e cosméticos com microesferas abrasivas;
- Indústria plástica, que perde pellets plásticos durante o transporte e produção;
- Pesca e navegação, que soltam fragmentos de redes e tintas;
- Uso agrícola de filmes plásticos e lodo de esgoto como fertilizante.
Essas partículas são extremamente persistentes e viajam longas distâncias. Já foram identificadas na neve do Everest, no fundo da Fossa das Marianas e na água da chuva em áreas protegidas dos Estados Unidos. Através do ar, da água e dos alimentos, chegam facilmente até os seres humanos.
Microplásticos e saúde humana
A presença de microplásticos no corpo humano já é uma realidade documentada pela ciência. Pesquisas encontraram essas partículas em diversas partes do organismo:
- Placenta
- Corrente sanguínea
- Pulmões
- Leite materno
- Fezes humanas
O mais surpreendente, porém, foi o recente achado de microplásticos no cérebro humano. Um estudo brasileiro, conduzido por pesquisadores da Faculdade de Medicina da USP e da Freie Universität Berlin, analisou o cérebro de 15 indivíduos utilizando o Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS). Microplásticos foram detectados no bulbo olfatório de 8 dos indivíduos — a primeira vez que se confirmou sua presença no tecido cerebral.
O polímero mais encontrado foi o polipropileno, usado em objetos como baldes, móveis e até para-choques de carro. Ao todo, foram identificados 16 tipos diferentes de plásticos.
Segundo o engenheiro ambiental Dr. Luis Fernando Amato-Lourenço, responsável pelo estudo, essas partículas podem gerar inflamação, estresse oxidativo e respostas imunológicas adversas — processos associados a doenças neurológicas.
“Microplásticos podem atuar como vetores de contaminantes químicos, como metais pesados e compostos orgânicos, com potencial neurotóxico”, alerta o pesquisador.
Essa descoberta reforça a necessidade de estudarmos com mais profundidade os efeitos dos microplásticos no cérebro humano, especialmente porque essas partículas são capazes de ultrapassar barreiras biológicas antes consideradas seguras, como a barreira hematoencefálica.
Como os microplásticos entram no corpo?
As vias de exposição humana são múltiplas e cotidianas:
- Ingestão de alimentos contaminados, como peixes, moluscos, sal, mel, leite e bebidas industrializadas;
- Inalação de partículas presentes no ar, especialmente em ambientes fechados;
- Ingestão de água contaminada, tanto de fontes naturais quanto água engarrafada.
Estudos estimam que um adulto pode ingerir entre 0,1 a 5 gramas de microplásticos por semana. Isso equivale ao peso de um cartão de crédito.
Em peixes processados, como as sardinhas, os riscos são ainda maiores, pois os microplásticos presentes no trato digestivo podem ser consumidos com o alimento.
Além da ingestão, a inalação de partículas suspensas no ar representa um risco real. Um adulto pode inalar até 170 partículas por dia, o que acentua a exposição contínua e involuntária.
Efeitos à saúde: muito além do intestino
As implicações da exposição crônica a microplásticos ainda estão sendo investigadas, mas evidências preliminares já são preocupantes:
- Inflamação crônica
- Estresse oxidativo
- Alterações hormonais
- Danos celulares
- Resposta imunológica exacerbada
- Disfunções neurológicas
Estudos in vitro mostram que microplásticos como o polipropileno podem induzir à produção de citotoxinas em células do sangue. Já em animais, foram observados efeitos neurológicos significativos após exposição prolongada.
A longo prazo, esses processos podem estar associados a condições como doenças autoimunes, disfunções cognitivas e aumento do risco para acidentes vasculares cerebrais. A propósito, veja nosso artigo sobre AVC para entender mais sobre como o cérebro responde a danos vasculares e inflamatórios.
O papel dos microplásticos como vetores de contaminantes
Além de seus efeitos físicos, os microplásticos servem como plataformas de transporte para contaminantes químicos perigosos, como:
- Metais pesados
- Pesticidas
- Ftalatos
- Bisfenol A (BPA)
- PCB (bifenilas policloradas)
- Dioxinas e hidrocarbonetos aromáticos
Esses compostos, conhecidos por serem disruptores endócrinos e neurotóxicos, podem se aderir à superfície dos microplásticos ou ser liberados durante sua degradação. Uma vez ingeridos, elevam o risco de doenças metabólicas, reprodutivas e neurológicas.
Os microplásticos também carregam microrganismos patogênicos e espécies invasoras, atuando como verdadeiros vetores biológicos e químicos, com impactos ainda pouco conhecidos sobre a biodiversidade.
Por que é tão difícil conter a poluição por microplásticos?
A resposta está na onipresença e persistência do material. Os plásticos são leves, duráveis, versáteis e baratos — e justamente por isso são utilizados em quase tudo na vida moderna. Mas sua resistência à degradação os torna um dos maiores desafios ambientais do nosso tempo.
Para piorar, as ações individuais, embora importantes, são insuficientes para conter o avanço da contaminação.
“Estamos em uma sociedade viciada em plásticos. O uso é inconsequente. Parte da população sequer se importa, mas estamos caminhando para um colapso”, afirma a médica patologista Dra. Thais Mauad, uma das coordenadoras do estudo brasileiro.
O cenário das pesquisas no Brasil
Apesar da crescente produção científica sobre microplásticos no exterior, o Brasil ainda apresenta baixa quantidade de pesquisas sobre o tema, especialmente relacionadas ao impacto na saúde humana.
Entre os avanços, destacam-se estudos de contaminação em rios, praias, solos agrícolas e espécies marinhas, que apontam presença significativa de partículas plásticas em todas essas matrizes.
O país também participa do International Pellet Watch, iniciativa global de monitoramento de contaminantes orgânicos associados a microplásticos.
No entanto, faltam políticas públicas integradas, incentivos à pesquisa interdisciplinar e uma estratégia nacional eficaz para a gestão de resíduos plásticos.
Como podemos agir?
Embora soluções estruturais dependam de ação governamental e industrial, alguns hábitos individuais podem contribuir:
- Evite plásticos de uso único (copos, talheres, sacolas);
- Use roupas com fibras naturais e evite lavar roupas sintéticas com frequência;
- Reduza o consumo de alimentos processados e água engarrafada;
- Apoie marcas e produtos que evitam o uso de microplásticos;
- Pressione empresas e governos por políticas de responsabilidade ambiental.
Considerações finais
A presença de microplásticos no cérebro humano não é apenas um alerta — é uma constatação de que a crise da poluição plástica atingiu o ápice. Os impactos desses contaminantes ultrapassam fronteiras geográficas e biológicas, atingindo ecossistemas remotos e órgãos vitais do corpo humano.
Ainda não sabemos com precisão todas as consequências desse fenômeno. O que a ciência indica com clareza é que estamos expostos a níveis perigosos de microplásticos — e que essa exposição pode estar silenciosamente comprometendo nossa saúde cerebral e sistêmica.
É hora de transformar a consciência em ação. Repensar o consumo, cobrar medidas públicas, apoiar a pesquisa científica e defender políticas globais de redução de plásticos são passos urgentes para garantir a saúde do planeta — e do nosso próprio cérebro.
Referências e Leitura Complementar:
- Amato-Lourenço, L. F., Dantas, K. C., Júnior, G. R., Paes, V. R., Ando, R. A., de Oliveira Freitas, R., … & Mauad, T. (2024). Microplastics in the olfactory bulb of the human brain. JAMA Network Open, 7(9), e2440018-e2440018. ➞ Ler Artigo
- Montagner, C. C., Dias, M. A., Paiva, E. M., & Vidal, C. (2021). Microplásticos: ocorrência ambiental e desafios analíticos. Química nova, 44(10), 1328-1352. ➞ Ler Artigo