Antes de discutirmos os efeitos que as chamadas fake news provocam no cérebro, precisamos esclarecer o significado desse termo. Hoje, as fake news são sinônimo de desinformação. Utilizadas livremente por veículos de notícia para indicar rumores e notícias que circulam, principalmente, nas redes sociais, elas não encontram respaldo na realidade.

Os especialistas incluem uma quantidade imensa e variada de informações dentro deste conceito. Desde sátiras, boatos, até mesmo notícias fabricadas. Uma boa definição foi proposta por Kai Shu e colaboradores em 2017, que consideram duas características-chave para que uma dada informação seja considerada fake news: a falta de autenticidade e o propósito de enganar.

Mas, será que as fake news são capazes de modular comportamento das pessoas? Será que elas interferem de alguma forma na cognição ou em outra esfera do funcionamento cerebral?

Fake news e memórias falsas

Um dos estudos mais amplos em termos de amostragem foi conduzido com eleitores irlandeses para investigar a formação de memórias falsas associadas à disseminação de fake news. Detectou-se por exemplo uma facilidade na fabricação de memórias de escândalos durante campanhas políticas emocionais de alta consequência, com quase metade dos participantes relatando uma memória falsa. Alguns participantes forjaram memórias ricas, com a incorporação de detalhes inexistentes, e tiveram dificuldades em perceber as inverdades mesmo quando alertados, o que atesta a “força” dessas falsas memórias facilmente criadas.

Outras pesquisas seguem na linha de que as pessoas que acreditam e compartilham notícias falsas são aquelas que simplesmente não pensam com cautela. A desinformação ativa teria raíz no pensamento “preguiçoso” do cérebro, que em função de qualquer desejo consciente ou subconsciente de proteger suas identidades, crenças e ideologias, deturpa as informações captadas pelos sentidos ou não “preza” por uma associação verídica dos fatos.

Aqui demonstramos um mecanismo que contribui para a credibilidade de notícias falsas: fluência por exposição prévia. Usando manchetes reais de notícias falsas apresentadas como foram vistas no Facebook, mostramos que mesmo uma única exposição aumenta as percepções subseqüentes de precisão, tanto na mesma sessão quanto após uma semana. Além disso, esse “efeito de verdade ilusório” para manchetes de notícias falsas ocorre apesar de um baixo nível de credibilidade geral e mesmo quando as histórias são rotuladas como contestadas por verificadores de fatos ou são inconsistentes com a ideologia política do leitor. Esses resultados sugerem que as plataformas de mídia social ajudam a incubar a crença em notícias flagrantemente falsas e que marcar essas histórias como disputadas não é uma solução eficaz para esse problema.

A inclinação do cérebro por fake news

Evidências mostram que o funcionamento cerebral se dá por meio de vieses cognitivos, os quais tornam o processo de tomada de decisão tendencioso por natureza. Isso não é necessariamente ruim, sobretudo quando analisamos do ponto de vista evolutivo. Entender todo esse contexto é crucial para nos darmos conta de que mudar a opinião das pessoas é uma façanha humanamente difícil.

Aliás, a neurociência aponta que temos uma predileção emocional pela propagação de fake news em relação às verdades mais simples. Uma das explicações admitidas é o chamado raciocínio motivado, a ideia de que os processos cognitivos das pessoas são tendenciosos a acreditar em coisas que estão em conformidade com sua visão de mundo.

Geralmente escolhemos ser corroborados ao invés de orientados.

Referências
  1. Shu, K., Sliva, A., Wang, S., Tang, J., & Liu, H. (2017). Fake News Detection on Social Media. ACM SIGKDD Explorations Newsletter, 19(1), 22–36. doi:10.1145/3137597.3137600
  2. Murphy, G., Loftus, E. F., Grady, R. H., Levine, L. J., & Greene, C. M. (2019). False Memories for Fake News During Ireland’s Abortion Referendum. Psychological Science, 095679761986488. doi:10.1177/0956797619864887
  3. Bago, B., Rand, D. G., & Pennycook, G. (2020). Fake news, fast and slow: Deliberation reduces belief in false (but not true) news headlines. Journal of Experimental Psychology: General. Advance online publication
  4. Pennycook, G., & Rand, D. G. (2018). Lazy, not biased: Susceptibility to partisan fake news is better explained by lack of reasoning than by motivated reasoning. Cognition. doi:10.1016/j.cognition.2018.06.011
  5. Pennycook G, Cannon TD, Rand DG. Prior exposure increases perceived accuracy of fake news. J Exp Psychol Gen. 2018;147(12):1865‐1880. doi:10.1037/xge0000465
  6. Yu, R. (2016). Stress potentiates decision biases: A stress induced deliberation-to-intuition (SIDI) model. Neurobiology of Stress, 3, 83–95. doi:10.1016/j.ynstr.2015.12.006

Sobre o Mentor

Leonardo Faria

Neurocirurgião que atua na região do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba. Membro-sócio titular da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia. Idealizador e CEO do site Meu Cérebro.

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