A qualidade do ar que respiramos é crucial para a saúde do nosso cérebro. Algumas referências dão conta de que aproximadamente 20% do oxigênio inalado é utilizado para suprir as demandas neurais centrais. Logo, não é surpresa imaginar que a poluição do ar provoque efeitos cerebrais.

Mas, quais efeitos são esses? O que a neurociência já conseguiu encontrar como evidência para suportar essas questões.

Neste texto reportei alguns estudos recentes. Inclusive uma visão mais ampla sobre poluição, incluindo outros tipos, especialmente para aqueles que vivem nos grandes centros urbanos.

Poluição e transtornos psiquiátricos

Neste estudo, que avaliou 151 milhões de indivíduos nos Estados Unidos e 1,4 milhão na Dinamarca, procurou-se identificar associações entre poluição ambiental e transtornos neuropsiquiátricos. Índices de Qualidade Ambiental (IQAs) e a exposição individual à poluição do ar foram utilizados ​​para avaliar essa ligação. A conclusão é que a poluição do ar está significativamente associada ao aumento do risco de transtornos psiquiátricos.

Os autores da pesquisa sugerem que os poluentes atmosféricos afetariam o cérebro humano por meio de vias neuroinflamatórias semelhantes àquelas encontradas em modelos laboratoriais de depressão.

Poluição do ar e risco aumentado de desenvolver autismo

Um estudo recente descobriu novas evidências ligando a exposição à poluição do ar com um risco aumentado de desenvolver autismo. Crianças em Xangai previamente expostas à poluição por partículas finas, como as dioxinas, foram 78% mais diagnosticadas com transtorno do espectro do autismo (TEA). As evidências do recente estudo, que monitorou as crianças por um período de nove anos, confirmam resultados de pesquisas anteriores.

A poluição do ar interfere no desempenho cognitivo

Artigo publicado no periódico PNAS examinou o efeito de exposições cumulativas e transitórias à poluição do ar no desempenho cognitivo. A conclusão foi que tal exposição prejudica o desempenho cognitivo em testes verbais e matemáticos. Evidenciou-se ainda que o efeito da poluição do ar nos testes verbais se torna mais acentuado à medida que as pessoas envelhecem, principalmente para homens e pessoas com menor escolaridade. Os danos no cérebro em envelhecimento pela poluição do ar provavelmente impõem custos econômicos e de saúde substanciais, considerando que o funcionamento cognitivo se torna ainda mais crítico para os idosos, tanto para executar tarefas diárias quanto para tomar decisões de alto risco.

Escolas expostas a altos níveis de poluição do ar, relacionados ao tráfego, podem contribuir para um desenvolvimento cognitivo mais lento em crianças, segundo artigo publicado no PLOS Medicine.

Alunos, com idades entre 7 e 10 anos, que frequentam escolas expostas a altos níveis de poluição do ar relacionados ao tráfego, apresentam uma redução na velocidade do desenvolvimento cognitivo, de acordo com um estudo recente publicado por Jordy Sunyer e colaboradores do Centro de Pesquisa em Epidemiologia Ambiental (CREAL – Centre for Research in Environmental Epidemiology), na Espanha. O estudo foi publicado pelo periódico semanal PLOS Medicine.

Suspeita-se que a poluição do ar seja considerada tóxica ao sistema nervoso e ao seu desenvolvimento. Muitas escolas estão localizadas próximas à estradas movimentadas e a poluição causada pelo tráfego pode afetar as crianças que lá se estudam. A pesquisa, publicada essa semana, no dia 3 de março de 2015, teve por objetivo avaliar se a exposição de crianças na escola primária aos poluentes atmosféricos do trânsito está associada ao desenvolvimento cognitivo.

Por que o Sistema Nervoso seria mais susceptível a poluição?

O sistema nervoso começa seu desenvolvimento ainda na vida intrauterina, quando se desenvolvem as estruturas e circuitos neuronais básicos do cérebro. Quando a criança nasce, esse órgão apresenta um quarto do tamanho do cérebro adulto. Os circuitos e estruturas relacionados com as funções vitais estão bem desenvolvidos nesse momento, mas o córtex, responsável pelo pensamento e controle de ações, ainda não está totalmente formado. Grande parte do córtex cerebral se desenvolve durante a infância e adolescência.

A exposição a poluentes atmosféricos pode interferir nesse desenvolvimento e prejudicar o rendimento escolar de crianças, segundo o estudo de coorte realizado na cidade de Barcelona na Espanha. Foram acompanhadas 2.715 crianças em 39 escolas, de semelhante nível socioeconômico, por doze meses. Testes computadorizados foram utilizados pelos pesquisadores para medir o desenvolvimento, a cada três meses, especialmente no que se refere à memória de trabalho, memória de trabalho superior e capacidade de foco e atenção, funções intimamente relacionadas com a aprendizagem.

Foi observado, no estudo, que o desenvolvimento dos parâmetros cognitivos das crianças que frequentavam o grupo de escolas com alto nível de exposição aos poluentes atmosféricos, em relação às crianças das escolas menos expostas à poluição do ar, foi inferior. Por exemplo, houve um aumento de 11,5% da memória de trabalho nas escolas pouco poluídas, durante os 12 meses de acompanhamento das crianças, mas apenas 7,4% de aumento, no mesmo período, da memória de trabalho dos alunos que estudavam nas escolas com altos níveis de poluição.

Poluentes podem “inflamar” o cérebro

Entre os poluentes relacionados ao trânsito que apresentaram alta penetração em sala de aula, foi encontrada uma associação entre o Carbono Elementar (CE) e partículas poluentes em suspensão no ar e o déficit de desenvolvimento cognitivo da criança. O dado é coerente com resultados em estudos animais que provam que as partículas em suspensão podem causar o rompimento da barreira hemato-encefálica, ativação da micróglia e inflamação no cérebro.

A partir dos resultados encontrados foi possível inferir que o desenvolvimento do cérebro na infância pode ser vulnerável à poluição do ar relacionada ao tráfego nas ruas, mas é importante ressaltar que problemas no desenvolvimento cognitivo não necessariamente estão relacionados à poluição do ar provocada pelo trânsito. Causas externas ignoradas pela pesquisa também podem ter influenciado o desenvolvimento das crianças analisadas. Essa conclusão tem implicações diretas nos projetos de regulamentação da poluição do ar. Promover um melhor desenvolvimento cognitivo dos alunos passa necessariamente pela melhoria da qualidade de vida e, agora, mais especificamente, por um melhor planejamento da localização de novas escolas, para que estas fiquem distantes dos locais mais poluídos.

Viver em locais muito barulhentos se associou a um risco 30% maior de desenvolver AVC com sequelas graves

Os altos níveis de ruído ambiental a que estamos sujeitos nas grandes cidades podem aumentar a gravidade e as consequências de um acidente vascular cerebral isquêmico (AVCi). Mais precisamente, pesquisadores identificaram um risco aumentado de 30% para as pessoas que vivem em áreas mais ruidosas. Por outro lado, morar perto de áreas verdes reduziu esse risco em até 25%. É a primeira vez que esses fatores são analisados ​​em relação à gravidade do AVC. O estudo foi publicado na revista Environmental Research e envolveu 2.761 participantes.

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Sobre o Mentor

Leonardo Faria

Neurocirurgião que atua na região do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba. Membro-sócio titular da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia. Idealizador e CEO do site Meu Cérebro.

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