Hemisférios cerebrais: temos dois cérebros ou um só?

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Uma das características anatômicas do cérebro humano é a sua divisão em duas metades: os hemisférios. Será que eles desempenham funções muito diferentes? Quando se formam? Como estão conectados? Quais as suas partes principais? Essas e outras questões serão abordadas ao longo deste artigo.

Hemisférios cerebrais
Por Bangkoker / Shutterstock

Embriologia dos hemisférios cerebrais

Do ponto de vista embriológico, é o chamado encéfalo anterior que dará origem às estruturas telencefálicas, especialmente os hemisférios direito e esquerdo. Eles começam a aparecer quando ocorre o fechamento do neuroporo rostral; após a formação do prosencéfalo, em um dado momento surgem duas evaginações laterais, as vesículas telencefálicas. Elas constituem a primeira aparição rudimentar dos hemisférios cerebrais.

Uma das principais características dos hemisférios cerebrais, e que pode ser facilmente observada, é sua superfície rugosa. As “rugas” cerebrais, denominadas em termos técnicos de giros e sulcos, começam a se formar por volta da quinta semana de gestação. A girificação dos hemisférios cerebrais possibilita que sua área aumente consideravelmente, tornando possível que uma grande quantidade de informações seja armazenada com o acúmulo de experiências após o nascimento.

O mito da especialização

Quando se fala em especialização funcional cerebral, a quantidade de artigos é surpreendente. Não é de hoje que os estudiosos vêm conseguindo associar algumas funções específicas com a atividade de determinadas regiões cerebrais.

Por exemplo, as regiões posteriores de ambos os hemisférios estão relacionadas à visão; o giro temporal transverso anterior do hemisfério dominante, à audição simples; os hipocampos, à formação das memórias, e assim por diante. Dessa maneira, cada área cortical do cérebro desempenharia uma função específica e, todas elas somadas, responderiam por todo o comportamento.

Por outro lado, a defesa de uma possível lateralização funcional hemisférica tem perdido força nos últimos anos. Na própria internet ainda se observam vários artigos alegando que o hemisfério esquerdo é mais analítico, matemático e linguístico, enquanto que o direito é mais musical, holístico e contemplativo.

A pesquisa mais atual tem apontado para o conceito de um cérebro que trabalha como uma unidade funcional, onde algumas partes aprendem funções de outras a depender da exigência neuroplástica do momento. Dessa maneira, a sedutora ideia de se explorar o lado criativo encontrando novas formas de acessar o hemisfério direito não passa de um mito. O próprio hemisfério esquerdo não está tão exclusivamente associado à linguagem como se pensava.

Neuroanatomia dos hemisférios cerebrais

Os dois hemisférios cerebrais constituem a maior parte do encéfalo. Separados por uma fissura longitudinal, estão interconectados por milhões de fibras neurais e se fundem ao diencéfalo, estabelecendo continuidade com o tronco encefálico e a medula espinhal.

Os hemisférios cerebrais envolvem os ventrículos laterais e o terceiro ventrículo e apresentam três superfícies (lateral, medial e basal), três bordas (superior, inferior e medial), três polos (frontal, temporal e occipital), três tipos de fibras de substância branca (de projeção, comissurais e de associação), várias regiões de substância cinzenta (áreas corticais e outras regiões profundas de núcleos e seis lobos (frontal, parietal, temporal, occipital, lobo límbico e ínsula).

Outros pontos de referência importantes, além das três margens e polos, são as fissuras lateral (de Sylvius) e inter-hemisférica. O maior diâmetro transverso acompanha a orientação dos lobos parietais. A fissura inter-hemisférica, longitudinal, é uma fenda profunda que separa as porções superiores dos hemisférios direito e esquerdo. Ela contém um processo dural em forma de foice, denominado foice do cérebro.

Informação importante: os hemisférios cerebrais não são a porção do encéfalo com a maior quantidade de neurônios. Os neurocientistas brasileiros Roberto Lent e Suzana Herculano-Houzel descobriram há alguns anos que os hemisférios cerebrais, juntos, possuem cerca de 16 bilhões de neurônios. Bem menos, por exemplo, que o cerebelo, com seus 69 bilhões.

Como eles se comunicam

A principal ligação entre as duas metades do cérebro é dada por um grosso feixe de fibras chamado corpo caloso. Este possui cerca de 200 milhões de axônios. O estudo de lesões do corpo caloso é muito importante para avaliar a conexão funcional entre os hemisférios cerebrais.

No passado, a maioria dos casos refratários de epilepsia eram tratados por meio de uma calosotomia – o seccionamento cirúrgico do corpo caloso –, impedindo que impulsos elétricos anormais se disseminassem pelo cérebro. Entretanto, ao serem avaliadas as pessoas que haviam sido submetidas ao procedimento, foi possível compreender melhor as consequências desse tipo de cirurgia.

Os pacientes que sofriam o split brain (cérebro dividido) passavam a ter literalmente duas mentes; o que o cérebro esquerdo aprendia e pensava se tornava desconhecido para o cérebro direito, e vice-versa.

Algumas situações que levaram à essa conclusão são bastante curiosas. Um paciente que havia sofrido a cirurgia possuía os hemisférios com boas habilidades verbais, o que permitiu que os cientistas “entrevistassem” ambos os hemisférios. Enquanto o direito dizia querer ser um piloto de corrida, o esquerdo gostaria de ser um desenhista. Outro paciente relatou que, durante uma briga com a esposa, sua mão esquerda parecia tentar atacá-la, ao passo que a direita a defendia.

O poder da neuroplasticidade

Mais recentemente, um novo estudo sobre um senhor de 88 anos, cujas queixas eram problemas intermitentes de coordenação relacionados à mão esquerda e algumas dificuldades leves de memorização, trouxe novas e interessantes informações acerca do tema. Apesar da ausência congênita do corpo caloso, diversos testes neuropsicológicos não evidenciaram anormalidades significativas. Na verdade, o homem tinha levado uma vida normal e independente. E os problemas com a mão esquerda eram novos.

Como poderia tal condição gerar tão pouca importância funcional? O corpo caloso não é a única ligação entre os hemisférios, mas é de longe a mais importante. O estudo serve para enfatizar a plasticidade do cérebro em desenvolvimento e, indiretamente, para nos dizer que não existe determinismo em relação às funções cerebrais. Na verdade, “cada cérebro” aprende uma série de coisas e a soma desse aprendizado é responsável pelo comportamento de uma pessoa.

Talvez, no caso acima, a ausência congênita do corpo caloso tenha estimulado decisivamente a organização cerebral precoce e o desenvolvimento de novas vias de cooperação inter e intra hemisféricas.

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Referências

  1. http://www.wired.com/2014/08/this-elderly-gentleman-was-born-with-his-brain-hemispheres-disconnected-how-did-it-affect-him-barely-at-all/
  2. http://www.ic.unicamp.br/
  3. http://www.psychologytoday.com/blog/brain-myths/201206/why-the-left-brain-right-brain-myth-will-probably-never-die
  4. NETTER, Frank H. Atlas de Anatomia Humana, 2ed. Porto Alegre: Artmed, 2000.
  5. SOBOTTA, Johannes. Atlas de Anatomia Humana, 21ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2000.

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Leonardo Faria
Neurocirurgião que atua na região do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba. Membro-sócio titular da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia. Idealizador e CEO do site Meu Cérebro.
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