Redes neurais: a anatomia da substância branca cerebral

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A substância branca nada mais é do que as redes neurais propriamente ditas. Sem essas fibras, toda a atividade inteligente do córtex seria esparsa e incoordenada. A comunicação dentro do cérebro é o tema deste artigo.

As fibras brancas são estruturas subcorticais que atuam interligando áreas encefálicas. As mensagens ou comandos provenientes do córtex seguem por um feixe de fibras, que as carregam para áreas específicas, formando as redes neurais que, se interrompidas, provocarão síndromes neurológicas. Correspondem a cerca de metade do volume cerebral.

Existem fibras de projeção que basicamente enviam impulsos do córtex para o tronco encefálico, medula espinhal, hipocampo etc, sendo responsáveis, por exemplo, pela movimentação de membros, ativação de memórias e emoções. Compostas pela coroa radiada (fibras entre o córtex e o tálamo) e a cápsula interna (ramos anterior, posterior e joelho).

As fibras de associação (maioria) interligam áreas corticais próximas ou à distância. Podem formar redes neurais dentro de um mesmo hemisfério como também entre um e outro. Dentre as fibras intrahemisféricas destacam-se o fascículo do cíngulo, fascículo longitudinal superior, fascículo longitudinal inferior e fascículo uncinado. As fibras interhemisféricas ou comissurais são compostas pelo corpo caloso, comissuras anterior, posterior, hipocampal e habenular.

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A substância branca nada mais é do que as redes neurais propriamente ditas. Sem essas fibras, toda a atividade inteligente do córtex seria esparsa e incoordenada.

A seguir, apresento mais detalhes sobre algumas dessas redes.

Fascículo longitudinal superior

O fascículo longitudinal superior possui 4 porções e conecta a parte anterior e posterior do cérebro. Interliga os lobos frontal, parietal e occipital, além da sua porção arqueada, que conecta essas áreas ao lobo temporal. Possui, portanto, dentre outras funções, importante papel na integração das áreas responsáveis pela linguagem (lobo frontal inferior e porção posterior do lobo temporal).

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Cérebro dissecado, visto de cima, evidenciando grossos feixes de fibras brancas ligando regiões dentro de um hemisfério ou conectando os dois lados, direito e esquerdo.

Cápsula interna

A cápsula interna é extremamente importante pois a maioria das fibras que entram ou saem do córtex passam por ela. É dividida em ramo anterior, joelho e ramo posterior. Separa o tálamo do núcleo caudado anteriormente e separa o tálamo do núcleo lentiforme, posteriormente. Lesões dessa área secundárias a obstrução de vasos ou hemorragias são frequentes (AVE) e podem causar hemiplegia e hemianestesia contralateral.

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Cérebro dissecado, vista lateral, evidenciando o fascículo longitudinal superior e, “por trás” (quadradinho dissecado), é possível visualizar as fibras formando a coroa radiada e cápsula interna.

Fascículo do cíngulo

O fascículo do cíngulo (FCG) é um feixe longo de fibras que passa internamente ao giro do cíngulo e continua no giro parahipocampal, sendo componente importante do sistema límbico. Interliga uma região que vai desde a porção subcalosa até o lobo temporal (formação hipocampal).

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Hemisfério direito dissecado, evidenciando o giro do cíngulo em formato de C.

Corpo caloso

O corpo caloso é o maior feixe de fibras do sistema nervoso. Permite o trânsito de informações entre os dois hemisférios cerebrais. Sua parte anterior (joelho e fórceps menor) conecta os lobos frontais, em seguida o corpo do corpo caloso e a parte posterior (esplênio e fórceps maior) conectam os lobos parietais e occipitais. A lesão da parte anterior provoca agrafia e distúrbios psíquicos como apatia, instabilidade do humor e déficit de atenção.

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Visão medial do hemisfério cerebral direito. O corpo caloso também tem o formato em C.

É possível avaliar a integridade dessas redes neurais com a tecnologia atual?

Sim. Atualmente, com o avanço das técnicas radiológicas, foi possível desenvolver métodos diagnósticos para estudar as fibras brancas. A partir de exames como a tractografia (um tipo de ressonância magnética), os especialistas podem nos dizer se determinado circuito cerebral está interrompido, desviado por alguma lesão tumoral ou simplesmente não existe. Interessante, não!?

tractografia-1
FLS: Fascículo Longitudinal Superior, CE: Cápsula Externa, FLI: Fascículo Longitudinal Inferior, UNC: Fascículo Uncinado, FX/ST: Fórnix/Estria Terminal, FOS: Feixe Occipito-Frontal Superior, FCG: Fascículo do Cíngulo.

tractografia-2
CCgn: Joelho do Corpo Caloso, CCfmn: Fórceps Menor do Corpo Caloso, CCfmj: Fórceps Maior, CCsp: Esplênio do Corpo Caloso, CCcp: Corpo do Corpo Caloso.

Chegamos ao fim. Obrigado pela leitura! Recomendamos ainda outros dois artigos sobre anatomia do sistema nervoso:

  1. Anatomia básica do Sistema Nervoso Central (intracraniano)
  2. A neuroanatomia do revestimento cerebral

Até a próxima!

Fontes: Netter Neuroanatomia, Rhoton Neurosurgery – Cranial Anatomy and Surgical Approaches

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justino queiroz netoclovis ataliba rodriguesKarinaMárcia Genovêz Comentários recentes dos autores
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clovis ataliba rodrigues
clovis ataliba rodrigues

Soh gostaria de saber se a neuroanatomia desses circuitos neurais
ja foram descobertos o que eles fazem !porque com tanta tecnologia
ainda não se sabe nada sobre esses fascículos e comissuras…..
Na minha opinião esses circuitos sao as projeções mais importante
do cérebro pois sao eles que ligam e trafegam o fluxos da consciência
propriamente ditas! E ateh agora nao sabemos nada á respeito!
mais seu esclarecimento foi oportuno,parabéns!

justino queiroz neto
justino queiroz neto

tem razao

Karina
Karina

Excelente matéria com um conteúdo impecável. Parabéns!

Márcia Genovêz
Márcia Genovêz

Matéria muito boa e bastante elucidativa. Parabéns!