Intuição: será que você deve confiar no seu sexto sentido?

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Intuição e sexto sentido

“Meu sexto sentido nunca falha”. “Escute seu coração”. Provavelmente você já ouviu alguma dessas frases. Será que é mesmo prudente dar atenção para aquela “voz interior” te dizendo para fazer ou não fazer algo, escolher isto ou aquilo, tomar esta ou aquela decisão? A neurociência pode te ajudar a decidir sobre seguir ou não a sua intuição.

Sexto sentido no cérebro

Esse papo de ouvir a intuição pode ser visto com muita ressalva, principalmente em ambientes mais conservadores, como na grande maioria das universidades e empresas mais tradicionais. Existe uma ideia comum de que nós seres humanos evoluímos de primitivos que acreditavam somente em coisas místicas, para indivíduos que observam e analisam o mundo por meio da ciência. Nesta trajetória, emoções e intuição parecem ter perdido o prestígio.

Acontece que as emoções deveriam levar mais crédito nesta história. Segundo uma psicóloga da Universidade de Coventry, elas não são respostas idiotas que precisam ser ignoradas ou corrigidas pelo nosso “lado racional”. Para ela, as emoções são avaliações das experiências que acabamos de viver ou imaginar e, por isso, uma forma de processar informações.

A intuição é fruto da atividade cerebral. Pesquisas sugerem que o cérebro compara constantemente as informações sensoriais e as experiências atuais com o conhecimento armazenado de experiências anteriores e outras memórias. Neste jogo de relacionar o que acontece agora com o que foi vivido antes, é como se o cérebro previsse o que vem a seguir. Os cientistas descrevem esse fenômeno como estrutura de processamento preditivo.

Cérebro prevenido

Este processo de comparar deixa o cérebro “esperto” e preparado para lidar com a situação real de um jeito eficiente. E quando acontece alguma coisa fora do previsto (uma incompatibilidade), esta espécie de base de dados (o modelo cognitivo) do cérebro é atualizada.

A correspondência entre modelos anteriores (com base na experiência passada) e a vivência atual é automática e inconsciente. A intuição acontece quando o cérebro faz uma correspondência (ligação entre experiências passadas e a experiência atual) significativa ou quando acontece a incompatibilidade (a informação de experiências passadas não bate com o que acabou de acontecer no presente, aconteceu o imprevisto), e tais eventos não tenham sido racionalizados de forma objetiva pela chamada consciência consciente.

Intuição é confiável?

Não existe uma resposta definitiva quando a pergunta é sobre o quanto podemos confiar na intuição. Apesar de ser resultado de experiências passadas, com as quais pudemos aprender lições, ela é um fenômeno mental rápido e automático. Como você leu no início do artigo, acompanha o ser humano há tempos, é parte do processamento evolucionário mais antigo.

Imagine uma panela inteira de brigadeiro (ou outro doce do qual goste bastante). E bate aquela vontade de comer tudo (ou muito). Do ponto de vista biológico, provavelmente você não precise de tanto açúcar ou gordura no corpo. Por outro lado, na época em que o ser humano era caçador-coletor, precisava estocar muita energia. Logo, comer todo o doce seria uma boa decisão. Hoje não precisamos caçar animais, então não precisamos de tanta reserva de energia, consequentemente, não há necessidade de ingerir muito açúcar.

A intuição também pode sofrer desvios, as chamadas distorções cognitivas: erros sistemáticos no pensamento que podem acontecer automaticamente e influenciar nossas decisões.

Outro argumento que nos diz para não confiarmos cegamente nela: por se basear no que já foi vivido, a intuição está limitada ao nosso quadro perceptivo específico. Seria portanto um julgamento desprovido de análises mais profundas, de outros pontos de vista. Por isso, vulnerável a preconceitos.

A outra maneira de avaliar as situações é através do raciocínio analítico. Mais lento, mas capaz de oferecer várias perspectivas da situação, mais variáveis para considerarmos, ultrapassando aquela associação rápida, pessoal e, por que não dizer, mais instintiva.

Intuitivo e racional

Sexto sentido com moderação

Resumindo toda a história, a intuição tem seu motivo de existir. Baseia-se nas nossas experiências e pode nos ensinar lições. Por outro lado, essa influência restrita ao passado pode deixar a intuição em desvantagem: ela fica refém das nossas emoções e pré-conceitos.

Além disso, integra um processamento neural rápido, que é antigo e nos acompanha há muito tempo, podendo se mostrar inadequado, pelo risco de estar desatualizado. Por isso, talvez seja importante buscar o equilíbrio entre aproveitar o “sexto sentido”, sem permitir que ele nos paralise ou reduza nossas possibilidades.

Você se considera uma pessoa mais racional ou intuitiva?

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Letícia Brito
Estudante de Comunicação Social - habilitação em Jornalismo, na Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Estagiária de reportagem em TV, apresentadora de boletim de notícias e colunista do MeuCérebro.

2 COMENTÁRIOS

  1. Olá Letícia, interessante seu texto: Intuição: será que você deve confiar no seu “sexto sentido”?
    Gostaria apenas de complementar que existem outros estudos sobre intuição e também sobre “Sexto sentido”. De fato trata-se de uma grande área de pesquisa chamada Psicologia Anomalística, presente em prestigiadas universidades internacionais e nacionais, neste caso, na USP (http://www.usp.br/interpsi/?page_id=70). A psicologia anomalística estuda experiências anômalas, como pode ser visto no livro texto publicado pela Atheneu (Variedades da Experiência Anômala: Análise de Evidências Científicas) no Brasil, e pela APA, nos EUA. As experiências anômalas são relatadas por mais de 80%, segundo estudos conduzidos na USP (http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/47/47134/tde-16122009-100608/pt-br.php) e UNESC. Essas experiëncias podem ser vistas como relatos subjetivos ou como fenômenos anômalos, conforme a método de pesquisa utilizado. No primeiro caso, não se considera que os relatos tenham fenômenos anômalos subjacentes. No segundo caso, através do método experimental, se controlam as condições para que os resultados sejam indicativos de fenômenos. Umas dessas áreas de pesquisa experimental atende pelo nome de Efeito pressentimento, ou a capacidade de uma pessoa de reagir a estímulos futuros sem que consiga por meios conhecidos antecipar tais estímulos. Uma metanálise sobre esses estudos pode ser encontrada em https://www.frontiersin.org/articles/10.3389/fpsyg.2012.00390/full. Pois bem, chegando então a intuição, é possível que esse efeito participe do processo de decisão humana e, nesse caso, não se trata de experiência prévia. Esse foi precisamente tema de meu doutorado no Inter Psi USP.

  2. Eu acho que consigo seguir os dois lados, intuição e razão, apesar de ser um pouco mais inclinado para razão.
    Olha muito bom seu texto! Adoro assuntos assim.

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