Transhumanismo: a ficção científica na realidade (parte 2)

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Na Parte 1 desse artigo, demos uma ideia sobre o que é o Transhumanismo, seus estudiosos e sua história. Para recapitular, o Transhumanismo estuda o Melhoramento Humano, seu futuro e suas implicações éticas e morais. O Melhoramento Humano, por sua vez, é o uso da tecnologia para alterar a natureza humana, melhorando as capacidades físicas, intelectuais, psicológicas, dentre outros exemplos.

Basicamente, a vertente científica-filosófica trabalha em cima de 3 conceitos principais: a Super-Longevidade (busca não só pelo aumento da longevidade, mas também para a eliminação do envelhecimento), Super-Bem-Estar (eliminação das doenças e de qualquer forma de sofrimento) e a Super-Inteligência (melhorando as capacidades intelectuais humanas, até mesmo com o uso de inteligências artificiais).

Mas, como todos pensamos ao ler sobre esse tipo de assunto, por que se importar com isso? É tudo tão distante e fruto de ficção científica… Ou não? É quase inevitável ter um susto quando paramos para perceber que não somos mais tão independentes de tecnologia quanto achamos.

A tecnologia já faz parte de nosso dia-a-dia e, em breve, pode vir a fazer parte de nós. Literalmente.

Aqui estão alguns exemplos de Melhoramento Humano. Não planos futuros, mas sim, tecnologias atuais:

O primeiro ciborgue

Sim, você leu “ciborgue” (“cyborg”, em inglês). Palavra derivada de “cyber” e “organismo”, ela significa uma fusão entre organismo e máquina, em especial quando falamos de alguma forma de robótica ou eletrônica. O nome desse “primeiro ciborgue” é Neil Harbisson.

Neil (imagem ao lado) é um artista de 33 anos, nascido na Inglaterra. Ele nasceu com uma condição chamada acromatopsia (incapacidade completa de perceber cores), de forma que ele enxerga tudo em preto, branco e cinza. Em 2003, em parceria com equipes de ciênciasCyborg da computação, ele iniciou um projeto para a criar um olho eletrônico que “ouve cores”. Basicamente, o aparelho é uma espécie de antena que se projeta à frente de seu rosto. Ela detecta os comprimentos de onda das cores que seu portador “vê” e as converte em ondas sonoras, que são percebidas pelo usuário via transmissão óssea do som.

E o que tem de mais nisso? Primeiramente, o próprio Harbisson considera o aparelho parte de seu corpo. Mais que isso, o aparelho foi, de certa forma, considerado por outras pessoas como um membro de seu corpo. Isso porque lhe foi permitido emitir seu passaporte usando uma foto que incluía seu “olho eletrônico” (sendo que, na Inglaterra, nenhum tipo de acessório pode aparecer na fotografia do passaporte).

Cyborg Passport
O passaporte de Neil Harbisson. Repare que, na foto, ele aparece usando seu aparelho.

E onde está o Melhoramento Humano nisso? Não seria apenas o uso terapêutico de um aparelho? Não tanto, porque, nas palavras do próprio Neil Harbisson, com o aparelho ele pode perceber comprimentos de onda que outros humanos não conseguem, como o infravermelho e o ultravioleta. Se quiser saber mais sobre esse assunto, o próprio Neil deu uma palestra para o site TED.com explicando um pouco de sua história e sobre seu dispositivo.

Isso é só um dos exemplos de união entre tecnologia e corpos orgânicos. Alguns adeptos de biohacking (uma versão informal de melhoramento humano) já instalam chips magnéticos em suas mãos, capazes de abrir portas com um simples movimento.

Lentes biônicas

Ocumetics
A lente biônica cabe na ponta de um dedo.

Uma empresa britânica chamada Ocumetics ® criou uma lente biônica (a BionicLens ®) capaz de auto-ajuste. Ela seria instalada cirurgicamente no olho e se ajustaria automaticamente para diferentes distâncias de foco. Isso não só corrigiria ametropias (defeitos de visão como a hipermetropia e a miopia), mas também tornaria sua visão 3x melhor que 20/20. Em outras palavras, você enxergaria bem a uma distância 3x maior que o habitual. E quando essa tecnologia deve estar disponível para o uso? Em aproximadamente 2 anos.

Monte seu bebê

Já pensou em “customizar” o seu filho? Escolher os gametas corretos para que ele tenha as características que você tanto sonhou.

Esse cenário retrata um pouco o filme GATTACA (1997). Sua estória se passa em mundo futurístico no qual os casais que desejam se tornar pais têm seus gametas selecionados para dar origem a filhos com o melhor desempenho físico, intelectual e a melhor saúde possível.

“Ah, mas esse sim é ficção científica!” Mais uma vez: nem tanto! Já ouviu falar da empresa 23 and Me? É uma empresa privada de genômica e biotecnologia, com sede nos EUA. Ela faz diversos trabalhos genéticos, desde mapear sua árvore genealógica até “montar seu bebê”. Isso é feito com mulheres que buscam engravidar através da inseminação artificial. O ponto chave do processo é o mapeamento genômico que a empresa faz de seu banco de esperma.

Basicamente, toda vez que uma mulher busca seu serviço de inseminação, a empresa faz o mapeamento de seu genoma e cruza os resultados com os dos potenciais doadores. Resultado: tabelas com a probabilidade de determinadas características surgirem na criança, de acordo com cada doador. Dessa forma, a mulher pode escolher qual esperma quer para que a criança nasça com os traços desejados.

Se ainda sobraram dúvidas, dê uma olhada nessa patente (acessível pelo link).

23 and me patent23 and me patent 2

De acordo com o documento (emitido em Setembro de 2013), é possível escolher qual o risco de a criança ter doenças cardiovasculares, intolerância à lactose e câncer colorretal. Mas também é possível escolher cor dos olhos, se a criança se tornará um atleta melhor em explosão ou resistência e mesmo o quanto ela ficará ruborizada ao ingerir álcool.

Outros exemplos

Existem inúmeros outros exemplos de como o Melhoramento Humano já é uma parte do nosso mundo. Como dissemos anteriormente, a Super-Inteligência já é buscada, por exemplo, com o uso de medicações como a Ritalina ® e o modafinil e mesmo com o uso de estimulação magnética transcraniana.

Vários e vários estudos buscam a Super-Longevidade através de múltiplos mecanismos. Já estão sendo testados a suplementação de NAD+ (em uma pesquisa de 2013), antioxidantes direcionados à mitocôndria (uma pesquisa de 2014) e tentativas de reverter células a um estado de células-tronco, promovendo regeneração tecidual e rejuvenecimento (em uma pesquisa de 2015). Como se pode observar, todas são pesquisas muito recentes que já trazem resultados positivos para o retardo do envelhecimento.

O Defense Advanced Research Projects Agency (DARPA), uma agência norte-americana, já está desenvolvendo pequenos aparelhos implantáveis capazes de estimular a regeneração automática de qualquer tecido corporal. Existem até mesmo tentativas de uma espécie de melhoramento moral: melhorar as relações humanas através da tecnologia. Alguns pesquisadores acreditam que isso seria possível adicionando ocitocina (um hormônio responsável pela sensação de prazer e afeto interpessoal) no fornecimento de água de algumas cidades.

Isso tudo, dentre vários outros exemplos.

Por que conhecer o Transhumanismo?

Já está claro: a tecnologia já é capaz de nos transformar, e nós já a estamos usando para isso. As tecnologias que ainda não são disponíveis já estão sendo testadas e as pesquisas, mesmo que em fase inicial, já estão progredindo rapidamente. Em breve, o que era ficção científica já não será mais tão diferente da realidade.

Mais uma vez, o objetivo desse artigo não é falar a favor ou contra o Transhumanismo, mas estimular a reflexão sobre o assunto.

O filme “GATTACA” (1997) mostra uma sociedade cheia de desigualdades resultante da seleção de gametas para a formação de humanos “perfeitos”.

Serão essas as saídas para os problemas da humanidade? Pode ser que não, pode ser que sim. Essas tecnologias estariam disponíveis para todos? Se não, métodos para melhorar a
inteligência poderiam tornar a competição no mercado de trabalho e no mundo científico injustas. Outro exemplo disso seria o próprio cenário representado no filme GATTACA. Se escolhermos as características genéticas para criar filhos “perfeitos”, não estaríamos criando desigualdades? Essas pessoas realmente seriam superiores, em diversos sentidos, àquelas nascidas da maneira convencional… Como resolveríamos essas diferenças?

E se essas tecnologias caíssem em “mãos erradas”? Poderiam deixar de ser uma esperança e se transformarem em motivo de preocupação? Se seu uso fosse regulamentado, isso provavelmente não nos tiraria o sono. Mas seria possível controlar seu uso? Como isso seria feito? Quais regras deveriam ser estabelecidas? Como garantiríamos que estão sendo cumpridas? Seria ético induzir comportamentos mais amigáveis nas pessoas colocando hormônios no fornecimento de água? Isso é necessário? Talvez até seja uma solução para o clima de tensão que existe hoje, com todos os casos de violência. Mas, ao mesmo tempo, estaríamos resolvendo problemas ou apenas os trocando para outros dilemas?

Por mais que essas questões pareçam muito distantes, elas são praticamente inevitáveis em um futuro mais próximo do que podemos imaginar. O importante é lembrar de pensarmos nessas questões com cautela antes de nos deixarmos levar pela empolgação. Como os próprios pensadores Transhumanistas e outros estudiosos dizem: as tecnologias crescem de forma exponencial, mas a ética e a moral não se desenvolvem tão rapidamente. Também é necessário lembrar de investigar todas as possibilidades referentes a essas tecnologias, lembrando-se sempre de pesar benefícios e riscos, tanto a nível sistêmico quanto ao nível individual.

Fontes: A History of Transhumanist Thought, Melhoramento Humano: heurística evolutiva e riscos existenciais, Ocumetics ®, CBC News, Genetics in Medicine, British Institute of PostHuman Studies (B.I.O.P.S.)

Imagens: Imagem 1, Imagem 2, Imagem 3, Imagem 4, Imagens 5 e 6, Imagem 7

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