Adeus, amnésia! Uma nova possibilidade de tratamento

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Perda de memória. Ou a chamada amnésia. Um tema presente tanto em nossas vidas cotidianas quanto na ficção, já é conhecido da grande maioria das pessoas por aparecer em filmes, séries, livros e outras formas de entretenimento. A grande maioria das pessoas já assistiu ao filme “Como se fosse a primeira vez” (50 first dates, em inglês) em que a personagem principal, Lucy Whitmore (Drew Barrymore) não consegue formar memórias de longo prazo desde o dia que sofreu um acidente automobilístico, esquecendo, ao dormir, tudo o que viveu ao longo de cada dia desde então.

E, apesar de parecer ficção, isso não acontece só na telona. A amnésia anterógrada (impossibilidade de formar novas memórias de longo prazo, apesar de as demais estarem preservadas) ocorre em muitos contextos diferentes. Isso inclui lesões cerebrais por traumas, a demência, a epilepsia mal controlada, dentre muitos outros exemplos. Uma população especialmente afetada são os veteranos de guerra: é comum lesões cerebrais e perda de memória naqueles atingidos por explosões, mesmo que não haja dano corporal significativo.

Mas, o que dá para fazer? Não tem como reverter uma lesão dessas… ou tem? Essa é a novidade que a ciência moderna acaba de nos trazer!

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Assim como acontece com a protagonista do filme “Como se fosse a primeira vez”, a incapacidade de formar novas memórias pode surgir por acidentes ou diversas outras causas.

Como se formam as memórias?

A formação de memórias é algo muito complexo, na verdade. Até hoje o assunto não é muito bem compreendido. Sabe-se que, anatomicamente, o processo ocorre em uma área cerebral chamada hipocampo, uma área “antiga” no sentido de estar presente nos cérebros de nossos antepassados há muito tempo. É uma região composta por 3 camadas de neurônios que recebem informações de várias regiões do próprio cérebro por intermédio do giro denteado, presente logo ao lado. O hipocampo em si ainda é subdividido em 4 regiões, denominadas de CA1 a CA4.

Corte coronal (“de cima para baixo, olhando-se de frente”) do hipocampo, demonstrando as regiões CA1 e CA3, alémd de parte do ventrículo lateral. Na figura de baixo, os neurônios da região CA3 encontram-se lesionados (nesse caso, pela administração experimental de cainato). DG: Giro denteado.

O processo de formação da memória é relativamente simples: o hipocampo recebe as inúmeras informações sobre o meio externo e nossos pensamentos, sentimentos, etc e, conforme essas informações vão sendo necessárias e acessadas novamente ao longo do dia, elas se consolidam na forma de novas sinapses entre neurônios recém-formados, gerando a memória de longo prazo.

Ilustração da posição anatômica do hipocampo, na parte mais profunda do lobo temporal.

O que os estudos mostraram foi que, durante esse processo, um intenso trânsito de estímulos ocorria da área CA3 (que recebe as informações do giro denteado) para a área CA1, e foi isso que permitiu imaginar uma possível cura para a perda das memórias de longo prazo.

A tecnologia anti-amnésia

A tecnologia destinada a tratar esse tipo de amnésia foi desenvolvida com fundos do programa Brain Research through Advancing Innovative Neurotechnologies (BRAIN), aprovado pelo governo dos EUA em 2013, com o objetivo de estimular a pesquisas sobre o funcionamento cerebral, suas doenças e tratamentos. Com esses fundos, a US Defense Advanced Research Projects Agency (DARPA), agência norte-americana associada ao exército do país, investiu em 2 equipes.

Uma delas ficou responsável por estudar como ocorre a formação de memórias. Essa equipe estudou pacientes com epilepsia grave, já encaminhados ao hospital para o posicionamento de eletrodos (que seriam usados para identificar a origem das crises epilépticas). Eles aproveitaram esses eletrodos para estudar a eletrofisiologia do hipocampo, enquanto realizavam atividades de memorização com os pacientes e tentavam formar algoritmos para prever seus desempenhos.

A segunda equipe ficou responsável por tentar desenvolver pequenos aparelhos que conseguissem identificar padrões de atividade cerebral e responder a eles com estímulos em tempo real.

Resultado: a produção de um aparelho implantável que imitaria os estímulos originados da área CA3 do hipocampo e os aplicaria diretamente sobre a área CA1, corrigindo, assim, o “vão” deixado nas pessoas que sofrem de amnésia anterógrada.

Esse tipo de estimulação, em macacos, resultou em melhoras na capacidade de formação de memórias. A próxima parte do projeto é testar a tecnologia em humanos. Na verdade, ele já foi testado em uma mulher com epilepsia, que estava no grupo estudado pela primeira equipe. Mas os pesquisadores dizem que ainda é cedo para saber se isso funcionou ou não e que o objetivo, agora, é expandir a população para incluir vítimas de traumas.

O que esperar?

Com certeza, essa é uma tecnologia que, uma vez disponível ao uso, pode melhorar a qualidade de vida de muitas pessoas. Imagine-se incapaz de formar novas memórias. Você pode achar que isso não faria muita diferença, afinal, você não perceberia isso acontecendo. Mas, ao mesmo tempo, a cada dia você se depararia com uma realidade “cada vez mais distante daquela de ontem”, sem saber “como as coisas mudaram tão rapidamente”, e aí começaria toda a confusão e sofrimento resultantes dessa condição.

Contudo, a própria equipe afirma: devemos esperar bons resultados, mas não devemos esperar um milagre. Pode ser que o aparelho não funcione em todo mundo. Se uma pessoa tiver lesão na área CA1, por exemplo, ao invés de CA3, todo o funcionamento do aparelho já se tornaria inútil. Algumas outras partes da pesquisa também observaram que, se os estímulos sobre essas regiões forem descarregados sobre um cérebro com memória preservada, a capacidade de formá-la se tornaria comprometida e, assim, seria necessário cuidado e mais critério na hora de prescrever um desses. Sem contar, claro, o risco inerente ao processo de se implantar um aparelho, ainda mais no delicado e complexo campo da neurocirurgia.

De qualquer forma, a pesquisa traz esperança, para os pacientes e suas pessoas de convívio mais próximo, de que possam ter uma melhor qualidade de vida. Lucy Whitmore provavelmente ficaria muito feliz.

Fontes: Nature News & Reference (1), Nature News & Reference (2), Clinical Neuroanatomy

Imagens: Imagem 1, Imagem 2, Imagem 3

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