O que são e como ter sonhos lúcidos

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Uma situação estranha, assustadora ou, simplesmente, inusitada está acontecendo. Você já se sente nervoso, angustiado, com medo ou desconfortável e… acorda! O alívio de saber que foi só um sonho – ou pesadelo – é ótimo. Agora, imagine poder identificar que você está sonhando, e não vivendo de fato uma situação, enquanto ainda está no sonho? E se o sonho estiver incrível – do tipo em que você voa ou tem poderes que sempre quis – e você percebesse que está sonhando, mas pudesse continuar ali, sem acordar, para aproveitar o momento? Isso é possível quando conseguimos ter sonhos lúcidos e permanecer neles.

O sonho lúcido é um estado de consciência de alguém que percebe estar sonhando enquanto ainda está dormindo. Pesquisadores já perceberam que isso pode ser mais comum em crianças e ficar mais raro quando o jovem alcança os 16 anos de idade. Por isso, propuseram uma ligação entre a ocorrência natural dos sonhos lúcidos e a maturação do cérebro. Existem descobertas apontando para o fato de que sonhos lúcidos são um estado único de consciência separado de qualquer outro estado mental. Além disso, estudiosos também perceberam que certas áreas corticais do cérebro são ativadas enquanto este tipo de sonho acontece. Estas três pesquisas foram citadas em um artigo, do portal Medical News Today, sobre sonhos.

É perigoso?

Se sonhos lúcidos não acontecem muito com você naturalmente, antes de saber instruções que podem ajudar a “sonhar lucidamente”, é importante entender que são apontados alguns perigos, que segundo este artigo, seriam pequenos, mas existem. Por exemplo, dificuldade para distinguir entre realidade e  sonho seria um dos perigos, mas isso aconteceria mais na hora de lembrar se uma memória que você tem foi realmente vivida ou só sonhada, e menos em momentos de questionar: “será que estou sonhando ou acordado agora?”.

Outro risco apontado é de que você fique, de certa forma, viciado na prática de tentar permanecer em um sonho lúcido, e isso atrapalhe sua rotina por querer passar mais tempo dormindo e fazer várias tentativas.

Como ter sonhos lúcidos 

Antes de querer induzir os sonhos lúcidos, é importante pesquisar mais sobre o assunto em fontes confiáveis, além de se atentar aos possíveis riscos. Uma pesquisa da Escola de Psicologia da Universidade de Adelaide, publicada na revista Dreaming, descobriu uma combinação específica de técnicas que podem aumentar as chances de se chegar a estes sonhos. Até então, havia outras técnicas para conseguir ter um sonho lúcido, mas que, segundo os pesquisadores, não tinham boas taxas de eficiência.

O estudo envolveu três grupos de participantes e investigou a eficácia de três diferentes técnicas de indução de sonhos lúcidos:

1º Teste de realidade – verificar seu ambiente várias vezes ao dia, para ver se você está ou não sonhando.

2º Acordar e voltar para a cama – Depois de cinco horas dormindo, acordar e permanecer sem dormir por um curto período de tempo, depois voltar a adormecer para entrar no período de sono REM (sigla em inglês que significa “movimento rápido dos olhos” e se refere a uma das fases do sono, na qual os sonhos são mais prováveis de acontecer).

3º Indução mnemônica de sonhos lúcidos – Ao acordar depois de cinco horas de sono, a ideia é desenvolver a intenção de lembrar que você está sonhando antes de voltar a dormir. Para isso, a técnica é repetir para si mesmo a frase “da próxima vez que eu estiver sonhando, vou lembrar que estou sonhando”. Outra técnica é se imaginar em um sonho lúcido.

Um dos pesquisadores , Dr. Aspy, explica que a técnica MILD “funciona no que chamamos de ‘memória prospectiva’ – isto é, sua capacidade de lembrar de fazer as coisas no futuro. Repetindo uma frase que você lembrará que está sonhando, forma uma intenção em sua mente que você vai, de fato, lembrar que você está sonhando, levando a um sonho lúcido “. Ele explica ainda que, entre os participantes, a técnica do sonho lúcido “não teve qualquer efeito negativo sobre a qualidade do sono” no dia seguinte.

Entre o grupo de 47 pessoas que combinaram as três técnicas, os participantes obtiveram uma taxa de sucesso de 17% em ter sonhos lúcidos durante o período de  uma semana. Entre os que conseguiram dormir nos primeiros cinco minutos após a realização da técnica MILD, a taxa de sucesso dos sonhos lúcidos foi maior: em quase 46% das tentativas.

Estes sonhos podem te ajudar a resolver problemas

Outra pesquisa, de 2014 e divulgada pela revista da Associação Internacional para o Estudo dos Sonhos (Revista Dreaming), diz que quem tem sonhos lúcidos é melhor para resolver problemas enquanto está acordado. Este resultado foi percebido por especialistas da Universidade de Lincoln, no Reino Unido.

O filme “Inception”, que no Brasil leva o nome de “A origem”, de 2010, fala sobre sonhos lúcidos. Os personagens percebem incoerências na situação dos sonhos e aí identificam que, na verdade estão sonhando. Possivelmente, pessoas que conseguem identificar esses elementos que não fazem muito sentido e, por isso, “pegam o sonho no flagra”, são capazes de fazer isso porque têm um nível mais alto de insight. No fim das contas, o cérebro detecta que está em um sonho porque na vida real não faria muito sentido o que está acontecendo ali.

Mas como essa habilidade de perceber que está sonhando pode significar bom desenvolvimento para resolver questões? Essa capacidade cognitiva se traduz na hora de encontrar saídas para problemas, enquanto a pessoa está acordada, percebendo soluções ou inconsistências ocultas, segundo os pesquisadores.

A pesquisa é de Patrick Bourke, professor Sênior da Escola de Psicologia da Universidade de Lincoln, que foi auxiliado pela, então aluna, Hannah Shaw. “Acredita-se que, para os sonhadores se tornarem lúcidos enquanto dormem, eles precisam enxergar além da realidade avassaladora de seu estado de sonho e reconhecer que estão sonhando. A mesma capacidade cognitiva foi encontrada para ser demonstrada, enquanto está acordado, pela capacidade de uma pessoa pensar de uma maneira diferente quando se trata de resolver problemas”, explica Bourke. Então, a ideia básica é “pensar fora da caixinha”.

O estudo foi o primeiro a analisar a relação entre sonhos lúcidos e insights, por isso o campo ainda tem muito para ser explorado. Foram examinados 68 participantes, com idades entre 18 e 25 anos. Alguns nunca tiveram sonhos lúcidos, outros já os experimentaram várias vezes por mês. Todos foram convidados a resolver trinta problemas, para testar a percepção. As questões seguiam a mesma lógica: eram dadas três palavras que poderiam ser combinadas para se chegar a uma outra palavra que relaciona todas. Exemplo: areia, milha e idade eram três palavras cujo resultado seria “pedra”. Ao final, os pesquisadores perceberam que os sonhadores lúcidos resolviam os problemas 25% mais vezes que os sonhadores não-lúcidos.

E auxiliam a ciência 

Pesquisa da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, publicada pelo pesquisador Sergio Arthuro, e citada em artigo da Revista Galileu, analisou as diferenças no padrão cerebral para sonhos lúcidos e sonhos não-lúcidos. Arthuro teve auxílio de outros pesquisadores e juntos observaram que estudar sonhos lúcidos, e as atividades cerebrais enquanto eles acontecem, pode abrir portas para analisar os estados de consciência. Na prática, poderia ajudar a entender melhor as experiências e características neurobiológicas de um estado de sonambulismo ou a paralisia do sono, por exemplo. Assuntos que, inclusive, já discutimos aqui no Meu Cérebro. Além disso, pode ajudar no estudo de psicoses.

Os pesquisadores brasileiros também apostam na indução de sonhos lúcidos para ajudar pacientes que têm pesadelo com frequência. Além disso, ter sonhos lúcidos poderia ajudar na reabilitação de distúrbios motores. Isso porque, segundo a pesquisa, simulações mentais de atividades motoras – como imaginar que está mexendo as pernas ou mãos – aumentam o desempenho real em tarefas comportamentais. “Dessa forma, pacientes com deficiências físicas poderiam potencialmente praticar tarefas motoras durante o sonho lúcido e avaliar se o ensaio dos sonhos diminui os sintomas motores”, aponta a pesquisa. Esse “treinamento” também poderia ser usado por pessoas que não têm deficiência, mas querem aprimorar suas habilidades: atletas, por exemplo.

Você já teve uma experiência de sonho lúcido? Conte pra gente nos comentários!

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Letícia Brito
Estudante de Comunicação Social - habilitação em Jornalismo, na Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Estagiária de reportagem em TV, apresentadora de boletim de notícias e colunista do MeuCérebro.

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