Qual é o som de uma cor?

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Alguma vez você escutou uma música e logo veio a percepção de uma cor em especial? Não, não é loucura. A sinestesia é um fenômeno neurológico caracterizado pela produção de duas sensações paralelas, de natureza distinta, por um único estímulo.

Música, cores e emoção

O fenômeno da sinestesia

Você estava saboreando algo e lhe veio algum som bem peculiar aos ouvidos? Algum lugar que você visitou logo lhe trouxe um sabor à boca? Determinado cheiro lhe faz ver imagens como se fossem reais naquele momento? Alguma vez você escutou uma música e logo veio a percepção de uma cor em especial? Não, não é loucura. A sinestesia é um fenômeno neurológico caracterizado pela produção de duas sensações paralelas, de natureza distinta, por um único estímulo.

Não há o que temer. A sinestesia não é uma doença. Na verdade, ela ilustra como o cérebro é um órgão complexo e repleto de fortes interconexões. A experiência sensorial de certas pessoas na qual sensações correspondentes a um certo sentido são associadas a outro sentido é, na verdade, o cimento da memória. Quanto mais relações as sensações puderem estabelecer entre si, mais facilmente são reestabelecidas as suas memórias correspondentes.

Portanto, por conta da sinestesia, eventualmente ocorre essa espécie de cruzamento de sensações em um só estímulo. Assim, uma cor pode ter um sabor ou um som pode ter uma forma. Essa forma diferente de processar as informações obtidas através dos sentidos pode ter uma base hereditária.

O que dizem os estudos

Diversos estudos têm investigado possíveis relações sensoriais desse tipo, especialmente entre sons e cores. Uma pesquisa realizada pela Universidade da Califórnia, em Berkeley, e publicada recentemente no periódico PNAS mostrou que o cérebro humano é capaz de ir mais além. Segundo o estudo, através das sensações que uma melodia provoca, o cérebro foi capaz de fazer relações entre cor e música a ponto de superar barreiras culturais, como se todas as pessoas apresentassem uma estrutura neural senso-perceptiva comum.

Ainda sobre o estudo, cujo título original é Music–color associations are mediated by emotion, identificou-se que músicas mais rápidas se relacionavam a cores claras e vívidas, como o amarelo, e melodias mais lentas, a tons mais escuros, acinzentados ou azulados. Todas essas informações poderão auxiliar o desenvolvimento de estratégias para afiar a criatividade e a percepção, novos métodos de reabilitação emocional que se utilizem de terapias cognitivas, além de embasar novas ações tomadas pelos profissionais do neuromarketing e publicidade. Os programas tocadores de música, por exemplo, podem se utilizar das informações de um equalizador para produzir padrões de cores em suas telas, procurando seguir as características – o “tom emocional” – de cada música.

Muitas figuras conhecidas já se lançaram no estudo das cores, como Aristóteles, Newton e Goethe. Em contrapartida, Goethe foi um dos únicos a se opor de certa forma à ideia intuitiva de que existe uma relação física direta entre sons e cores. Em uma de suas obras, A Teoria das Cores (Zur Farbenlehre), originalmente publicada em 1810, ele disse:

“Sempre se percebeu que existe certa relação entre cor e som, como demonstram as frequentes comparações, por vezes passageiras, por vezes suficientemente pormenorizadas. O erro nelas cometido se deve ao seguinte: Cor e som de maneira alguma podem ser comparados, embora ambos remetam a uma fórmula superior, a partir da qual é possível deduzir cada um deles. Ambos são como dois rios que nascem na mesma montanha, mas devido a circunstâncias diversas correm sobre regiões opostas, de modo que em todo o percurso não há nenhum ponto em que possam ser comparados. Ambos são efeitos gerais e elementares segundo a lei universal que tende a separar e unir, oscilar, pesando ora de um lado, ora de outro lado da balança, mas conforme aspectos, maneiras, elementos intermediários e sentidos completamente distintos.”

Mas, apesar do alerta de Goethe, os neurocientistas insistem na correlação neural entre sons e cores. Seguindo vias neurais próprias e paralelas ou que, secundariamente, se cruzem em algum ponto do caminho perceptivo cerebral, o fato é que parece prevalecer um denominador comum entre as sensações, particularmente entre aquelas veiculadas pelos olhos e ouvidos. Assim como outro estudo de 2007 – The Color of Music: Correspondence Through Emotion – também conclui, a música parece compartilhar com o som um substrato neural comum: o emocional. Seria esse o ponto onde nasce a sinestesia.

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Esta matéria faz parte da 1ª edição da nossa revista digital. Confira!

Fontes: goo.gl/D3SXpCgoo.gl/r74uRhgoo.gl/WesMx9goo.gl/T7kvZigoo.gl/kNvklS e goo.gl/L6m8OI
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Leonardo Faria
Neurocirurgião que atua na região do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba. Membro-sócio titular da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia. Idealizador e CEO do site Meu Cérebro.
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Marcia Mah
Marcia Mah

Acredito tanto nessa correlação que fiz uma série de músicas que refletem essa percepção, estão no álbum PRISMAH – um olhar sobre o corpo da voz – Marcia Mah.

Isabella
Isabella

Postagem um tanto antiga, mas muito interessante.
Tenho esse tipo de sinestesia que envolve cor e música. Certos tons me trazem certas cores e certos arranjos de cores à mente, até mesmo formam imagens ou misturas que variam de velocidade. Esse fenômeno é mais forte ainda quando ouço música eletrônica como dubstep ou trance: é uma explosão e corrida de cores muito bizarra (e legal também).

Adriana
Adriana

meu filho ve cor nos cheiros